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A solidão do mais forte

  • Foto do escritor: Mike Souza
    Mike Souza
  • 9 de ago. de 2023
  • 7 min de leitura

Aviso: o texto a seguir contém spoilers dos animes e parte dos mangás de Jujutsu Kaisen e Kimetsu no Yaiba.


Sempre que nos aprofundamos em um mundo de fantasia, onde somos pedidos para criarmos nosso personagem e imaginarmos nosso alter-ego fantástico (como em jogos de RPG, por exemplo), é comum que busquemos enaltecer as forças deste dito personagem. Ora, afinal, a fantasia serve justamente como sendo um escape da realidade; se na vida real não posso voar, soltar lasers pelos olhos e destruir prédios com as mãos, por que deve meu personagem também não conseguir?


De fato, buscar a força fantástica é algo bastante comum. Porém, em alguns casos, o preço pago por ter tamanha força não é levado em consideração pela nossa imaginação. Escrever um personagem poderoso em uma história não é tarefa simples, pois estes trazem consigo uma espiral de atitudes e consequências que lhes cercam. Primeiro, se dito personagem for um "mocinho", tornará a história difícil de ser levada a sério já que, em teoria, este pode resolver todos os problemas. Segundo, caso seja este um "vilão", deixará um gosto amargo na boca do leitor se a eventual vitória dos mocinhos não for bem elaborada (sim, ainda remoo o final de Naruto).



Mas como explorarmos a verdadeira beleza destes personagens? Bem, há muitas formas disso ser feito, e uma delas é humanizando-os. Mostrando ao leitor que a força não é tudo na vida e que, apesar de terem-na em abundância, alguns personagens não conseguem atingir plena felicidade com ela. É um conceito um tanto cruel até, te faz pensar que pouco há escapatória para o eterno sofrimento da vida; entretanto, olhando por lentes mais otimistas, também mostra que ninguém é perfeito, portanto, não há razão para que você seja.


Vejamos alguns casos. Em Jujutsu Kaisen, um mangá da "nova era dos mangás", que atingiu sucesso avassalador não muito tempo atrás, temos o personagem Satoru Gojo (este da capa). De início, Satoru é um divisor de opiniões: sua personalidade excêntrica, descontraída, suas piadas e, principalmente, sua força descomunal dentro do universo tornam-no um queridinho entre os fãs. Contudo, muitos odeiam-no por ser arrogante, abusado, o tipo de pessoa que todos detestariam ter por perto. Há, no fim das contas, algo ao qual todos devem concordar: Satoru Gojo é o feiticeiro mais poderoso do mundo.



Gojo até cita Budda depois de atingir o "nirvana" numa luta.


Isso é estabelecido na obra desde a primeira cena em que este aparece, e continua correto até então (a história ainda está sendo lançada). Satoru é tido como o pináculo do mundo Jujutsu, seus ataques são capazes de distorcer e moldar a realidade, sua técnica o deixa virtualmente invencível e seu conhecimento dos conceitos daquele universo são condecoráveis. Ainda assim, apesar disso tudo, Satoru é um homem repleto de falhas e fantasmas que o assombram até hoje. Isto é, pois, quando se é tão forte, o peso da responsabilidade de toda uma sociedade recai sobre seus ombros. Satoru talvez não tenha sabido lidar bem com isso.


Desde muito jovem, fora ameaçado e caçado por ser o portador dos Seis Olhos (o equivalente a usar hack neste universo). Muitos tentaram o matar e isso acaba despertando em Satoru duas coisas: a arrogância característica (afinal, tentaram, nunca conseguiram) e a desconfiança de que ninguém de fato deseja se aproximar dele sem segundas intenções. Durante o período de estudos na escola Jujutsu, Satoru demonstra uma filosofia extremamente interessante perante os deveres e a hierarquia da sociedade de feiticeiros; ora, por que devem eles, os mais fortes, se incomodarem em proteger os mais fracos (nós, os humanos não-feiticeiros)? Essa linha de raciocínio de Satoru jovem vai de encontro direto com a de seu melhor amigo (sim, ele conseguiu um!), o igualmente poderoso feiticeiro Suguru Geto. Enquanto Satoru defende que os feiticeiros não precisam proteger ninguém além deles mesmos, parando assim de arriscarem suas vidas, Geto diz que é o dever deles proteger os mais fracos; pois é assim que funciona a sociedade Jujutsu, onde o Jujutsu existe para cuidar daqueles que não nasceram com esse dom.




Todavia, as coisas mudam bastante ao longo da jornada de Satoru (e Suguru, que abordarei em outro post). Apesar da sua força indisputável, Satoru foi incapaz de proteger a todos- pelo contrário, ele mal protegeu a si! Satoru viu a morte de sua protegida em missão, não foi capaz de impedir a descendência de seu melhor amigo à insanidade, tão menos de salvá-lo a tempo; Satoru, portanto, se viu sozinho outra vez, remoendo o peso das consequências não daquilo que fizera, mas sim do que fora incapaz de fazer. Sua mentalidade mudou, Satoru amadureceu, entendeu o propósito dos feiticeiros em proteger os mais fracos, tornou-se professor para mudar o sistema corrupto da sociedade Jujutsu de baixo para cima, apesar de sua plena capacidade em ao menos tentar mudar de cima para baixo. A evolução mental de Satoru ao longo da história é notável e, ainda assim, mesmo cercado de companheiros e alunos, no fundo, ele sabe que ninguém ali além dele enxerga o mundo da forma que ele enxerga. E o único que talvez pudesse fazê-lo, Satoru foi incapaz de defender há tanto tempo.


Então chegamos no segundo meliante (brincadeiras a parte) a ser analisado, ou este post ficará enorme. Em Kimetsu no Yaiba, a história segue a jornada do garoto Tanjiro, um filho de carvoeiros que teve a família assassinada por um Oni e a irmã transformada numa das criaturas. Agora, Tanjiro busca vingança contra o assassino, também desejando encontrar a cura para a pequena Nezuko. O enredo e o desenvolvimento da trama de Kimetsu é tido por muitos como algo no máximo mediano, e eu concordo com essa opinião em sua maior parte. Porém, apesar do pouco tempo tido para serem desenvolvidos, os personagens da trama são muito queridos e, de certa forma, profundos.


Falaremos por tanto de um destes personagens, Yoriichi Tsugikuni.

(aviso novamente, haverão spoilers mesmo para aqueles que estão atualizados no anime!)


Yoriichi nasceu numa família da era Sengoku no Japão (um período histórico conturbado e, neste universo, tido como a Era de Ouro dos Caçadores de Oni, soldados e guerreiros responsáveis por matar os monstros). Ele era o gêmeo mais novo da dupla com o mais velho, Michikatsu, e, como se não fosse tabu o suficiente, Yoriichi nasceu cheio de problemas. Primeiro, ele tinha uma marca na testa, o desenho em brasas do próprio fogo; segundo, era um menino franzino, quieto e frágil, só aprendendo a falar bem tarde na vida, andando apoiado na mãe para onde iria. De fato, Yoriichi era visto como um mau presságio pelo seu próprio pai, e seria logo deserdado da família, enquanto seu irmão fora escolhido para ser herdeiro, por conta da exímia habilidade como samurai.


Tudo mudou de repente, num dia em que Michikatsu treinava. Yoriichi o abordou e falou suas primeiras palavras, dizendo que queria treinar também para ser um espadachim. Sem nunca ter pego em um espada, Yoriichi humilhou (com ênfase na palavra) o instrutor, derrubando-o e desmaiando-o em golpes rápidos de um profissional. Abismado e entristecido pelo que fizera ao homem, Yoriichi não desejava mais ferir ninguém e desistiu da ideia, mas seu destino já havia sido selado; ele era um prodígio que herdaria o clã e traria a glória aos Tsugikuni.


Contudo, não querendo ofuscar o brilho de seu querido irmão, Yoriichi fugiu. Ele caminhou por dia e noite sem parar, indo viver sua vida distante de tudo aquilo. Yoriichi cresceu e teve uma bela família em tempos pacíficos, até ser confrontado pela dura realidade, quando um Oni matou sua esposa (que estava grávida) sem que ele estivesse em casa para defendê-la. É irônico pensar que esse evento causado por um Oni ao qual nem sequer possui um nome desencadearia o efeito borboleta necessário para que os mocinhos vencessem a batalha final. Daquele dia em diante, Yoriichi empunhou a katana novamente, jurando dedicar a vida para acabar com os Onis.


Mas ele não estaria neste post se fosse bem-sucedido nisso. Podes perguntar a qualquer leitor do mangá de Kimetsu quem foi o personagem mais poderoso da obra, e a resposta será rápida (a menos que seja um leitor teimoso): Yoriichi. O homem criou a primeira respiração, técnica usada pelos espadachins para conseguirem se igualar aos Onis; ele revolucionou a tropa dos Caçadores de Oni, ensinando-os as respirações, dando início à Era de Ouro e chegou a salvar a vida de seu irmão, que acabou entrando para os Caçadores também. Juntos eram Sol e Lua, imbatíveis. Mas haviam problemas.



Isto é, porque ninguém de fato conseguia compreender Yoriichi. Ele era capaz de ver algo que os demais não viam (literalmente); mais tarde, por exemplo, Michikatsu descobre que seu irmão não se apoiava na mãe, mas pelo contrário, era ela quem se apoiava nele, pois tinha um princípio de doença que levaria ao óbito anos depois sem que ninguém além do mais novo soubesse. Sua técnica não foi aprendida pelos demais caçadores, não importa quanto tentasse ensinar, nenhum dos outros espadachins aprenderam a respiração do Sol (a mais poderosa e correta). Ele era inigualável em qualquer aspecto que se pusesse a teste. Ainda assim, Yoriichi falhou, várias vezes. Tantas ao ponto de dizer que seu nome não merecia ser lembrado e que seu legado deveria morrer com ele.



Falhou primeiro em proteger sua esposa e filha. Não conseguiu passar adiante a respiração crucial para matar os Onis. Não conseguiu impedir a inveja de corroer o coração de seu irmão. Yoriichi falhou em concluir "a única coisa ao qual nasceu para fazer: matar Muzan Kibutsuji (o Rei dos Onis)". Yoriichi falhou também em dar um fim ao seu irmão. O mais irônico é pensar que ele esteve muito próximo de conseguir tudo isso, mas não conseguiu. Yoriichi por pouco não desistiu de tudo ao qual ainda valia a pena lutar, sendo lembrado da beleza da vida numa das cenas mais emocionantes do mangá (para mim), onde cai em lágrimas ao ver num bebê a futura geração a ser protegida e a filha ao qual nunca pôde abraçar.



Apesar disso, tanto Satoru quanto Yoriichi foram vitoriosos no final (ou ao menos espero que Satoru seja). Este post não tem o intuito de provar que eles são uma fraude, fracos ou nada do tipo. Pelo contrário, busco mostrar que é possível fazer personagens fortes serem relacionáveis, falhos, humanos; é possível que um homem de tanto poder não consiga seguir em frente das memórias da perda de seu melhor amigo (entre outros). Como também é possível para o espadachim mais poderoso da história não ter matado nenhum Oni importante, e ter falhado em tudo que se propôs e que esteve destinado a concluir. Mas quem, de fato, consegue entendê-los? Decerto que poucos, se não ninguém, dentro de seus respectivos universos, sabem o que é a solidão de ser o mais forte, mas este conceito especial não precisa ficar às escuras para nós também.


Termino o post com uma de minhas frases favoritas de Yoriichi, que exemplifica bem a mentalidade necessária para seguirmos em frente!



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Eu me chamo Mike. Sou um jovem aspirante a muitas coisas. Trabalho com tradução EN-PT e assessoria de artigos acadêmicos a pouco mais de dois anos. Nesse blog, dou minha opinião e faço análise de livros, mangás e histórias em geral (inclusive a história do mundo).

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